O Testamento de Heiligenstadt de Beethoven e a Alma Prisioneira de Platão

*por Marco Aurélio Loureiro

Beethoven no final de sua vida, já tomado pela surdez, escreve o Testamento de Heiligentadt. Nele, o compositor diz que não terminava com sua vida ali porque ainda tinha um recado a dar ao mundo. Deus havia dado a ele uma missão de transmitir uma mensagem aos homens e ele ainda não tinha feito isso por completo.

Esse recado era através de sua música. Beethoven não podia se isentar dessa missão enquanto ela não estivesse completa.

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Será que também não temos nosso recado a dar aos homens? Através de nossos talentos e possibilidades de intervenções no mundo, de que maneira podemos deixar que nossa essência se manifeste e deixe nosso Legado para a Humanidade.

Não podemos deixar de cumprir a nossa Missão. A alma precisa se expressar e nós precisamos que ela se expresse para que nossa vida tenha algum sentido. Para que faça a diferença.

Teoria da Alma Prisioneira de Platão

A alma deseja se expressar. Ela habita cada um de nós e quer atuar no mundo, dar o seu recado, agir através de nossa existência física. Segundo Platão, nossa alma está aprisionada em nossas necessidades do corpo e do meio físico. Porém ela pode voltar a se conectar com sua verdadeira essência e se expressar livremente. Nesse momento, o homem será verdadeiramente livre e realizado.

Somos como uma luva que abrigamos uma mão que deseja manipular algum objeto. Se formos rígidos, inflexíveis a nossa mão que é a representação de nossa essência imortal, de nossa alma, não se expressará. O Testamento de Beethoven mostra que ele compreendia que devemos deixar que a mão conduza nossas ações, porque o que viemos fazer nesse mundo é permitirmos que aquilo que somos verdadeiramente possa interferir positivamente no mundo.

Platão dizia que educar é abrir a cela que aprisiona a alma para que ela possa se expressar no mundo. Oferecer ar para que ela possa ganhar vitalidade e vir ao mundo em sua plenitude. Qual recado você tem a dar ao mundo.

O Testamento de Beethoven

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“Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas acções; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos. Iludido constantemente, na esperança de uma melhora, fui forçado a enfrentar a realidade da rebeldia desse mal, cuja cura, se não for de todo impossível, durará talvez anos! Nascido com um temperamento vivo e ardente, sensível mesmo às diversões da sociedade, vi-me obrigado a isolar-me numa vida solitária. Por vezes, quis colocar-me acima de tudo, mas fui então duramente repelido, ao renovar a triste experiência da minha surdez!

Como confessar esse defeito de um sentido que devia ser, em mim, mais perfeito que nos outros, de um sentido que, em tempos atrás, foi tão perfeito como poucos homens dedicados à mesma arte possuíam! Não me era contudo possível dizer aos homens: “Falai mais alto, gritai, pois eu estou surdo”. Perdoai-me se me vedes afastar-me de vós! Minha desgraça é duplamente penosa, pois além do mais faz com que eu seja mal julgado. Para mim, já não há encanto na reunião dos homens, nem nas palestras elevadas, nem nos desabafos íntimos. Só a mais estrita necessidade me arrasta à sociedade. Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava!

Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou! Pareceu-me impossível deixar o mundo antes de haver produzido tudo o que eu sentia me haver sido confiado, e assim prolonguei esta vida infeliz. Paciência é só o que aspiro até que as parcas inclementes cortem o fio de minha triste vida. Melhorarei, talvez, e talvez não! Mas terei coragem. Na minha idade, já obrigado a filosofar, não é fácil, e mais penoso ainda se torna para o artista. Meu Deus, sobre mim deita o Teu olhar! Ó homens! Se vos cair isto um dia debaixo dos olhos, vereis que me julgaste mal! O infeliz consola-se quando encontra uma desgraça igual à sua. Tudo fiz para merecer um lugar entre os artistas e entre os homens de bem.

Peço-vos, meus irmãos assim que eu fechar os olhos, se o professor Schmidt ainda for vivo, fazer-lhe em meu nome o pedido de descrever a minha moléstia e juntai a isto que aqui escrevo para que o mundo, depois de minha morte, se reconcilie comigo. Declaro-vos ambos herdeiros de minha pequena fortuna. Reparti-a honestamente e ajudai-vos um ao outro. O que contra mim fizestes, há muito, bem sabeis, já vos perdoei. A ti, Karl, agradeço as provas que me deste ultimamente. Meu desejo é que seja a tua vida menos dura que a minha. Recomendai a vossos filhos a virtude. Só ela poderá dar a felicidade, não o dinheiro, digo-vos por experiência própria. Só a virtude me levantou de minha miséria. Só a ela e à minha arte devo não ter terminado em suicídio os meus pobres dias. Adeus e conservai-me vossa amizade.

Minha gratidão a todos os meus amigos. Sentir-me-ei feliz debaixo da terra se ainda vos puder valer. Recebo com felicidade a morte. Se ela vier antes que realize tudo o que me concede minha capacidade artística, apesar do meu destino, virá cedo demais e eu a desejaria mais tarde. Entretanto, sentir-me-ei contente pois ela me libertará de um tormento sem fim. Venha quando quiser, e eu corajosamente a enfrentarei.

Adeus e não vos esqueçais inteiramente de mim na eternidade. Bem o mereço de vós, pois muitas vezes, em vida, preocupei-me convosco, procurando dar-vos a felicidade.

Sede felizes!”

Heiligenstadt, 6 de outubro de 1802.
Ludwig van Beethoven.

 

*Marco Aurélio Loureiro é desenvolvedor humano, coach, mentor, professor, matemático, terapeuta corporal ayurvédico e tântrico, autor e palestrante.